
Desenhado por: Domingo Salgado
Tive dias a decidir nesta minha sentença, se a fazia ou não, e inadequadamente não se o porquê, decidi escrever tendo nexo ou não. Uma confissão sem saber o que sou ou se sou alguém neste momento inacabado. Não sei qual o resultado ou estupidez que me possa causar, só sei que não tinha o direito de o fazer e como antes chamado, é um simples acto de cobardia directa da minha parte. São muitas as noites de melancolia nesta varanda, em que nada se passa ou passa na minha cabeça, apenas existe um manto totalmente branco, parece o nevoeiro de Silent Hill,... Tudo completamente abandonado, negro e sombrio, oiço assustadoramente no silencio, portões a bater, serras a trabalhar na minha cabeça, por vezes até parece que sinto talhantes a cortar carne como se tivessem num talho, e eu fosse a carne presa num gancho que está à espera de ser talhada dentro daquela câmara frigorifica que tanto me prende o corpo e me congela o pensamento. É mais um momento em que me sinto uma coluna de um prédio como uma bomba à cintura pronta a explodir em qualquer instante, uma bomba que me aperta contra a parede, que me mantém sentado neste chão frio, quase congelado da minha varanda. Horas sentado a olhar e reflectindo sobre o nada, a noite toma conta de mim, espalha-me no corpo, a inactividade e a incapacidade de pensar e reagir, apenas me mostra um sonho bastante real ... Um momento inacabado...
"A pergunta.
Às vezes tens a sensação que és uma ave? Daquelas que têm penas e planam, voam e sentem liberdade, sentem o céu e viajam? Que podem fazer tudo o que Tu não podes fazer. Isto tem nexo?
Às vezes, tens a sensação que andas até ao corrimão do pontão naquela praia que tanto sonhas, daquela areia branca que tanto queres pisar, daquela água transparente que tanto te queres banhar. Que sorriso tão belo... Tens aquele momento de longevidade, o mesmo pontão, que apanhas ou agarras, ou talvez não que ... Quando te ergues e olhas para o horizonte, reflectindo sobre o vazio que observas à tua frente, dobras os dedos para dentro e quando sentes, já não há corrimão, não há nada para agarrar... Merda! O que vês à tua frente, é simplesmente o mar, os teus pés e nenhum chão para pisar, estás a cair!"
Acorda, pah! A temperatura gélida da parede, acorda-me de mais um momento inacabado de puro pesadelo não dando descanso ao tanto grande cansaço mental que possuo. Tortura-me sempre que o sono se lembra de se ausentar de mim, magoa-me a forma como o sono leva o meu descanso, estoira-me a cabeça em cascata de lágrimas quando o pensamento me incapacita de raciocinar, é como se me tivesse roubado a vida, não me sinto a pessoa que um dia quis ser, sinto-me vazio, escondo-me à frente de toda a gente, tenho na minha cara, a máscara que jamais quis ter! Sinto-me incapaz de me entregar às pessoas próximas de mim, a noção de ser sensível até causa-me arrepios e vontade de vomitar, tenho medo de as magoar. Já magoei tantas, é nisto que me tornei, um monstro selvagem que me mata quando fecha os olhos.
Escrito por: Ricardo Lourenço
Lisboa, 13 de Dezembro de 2009
Sinto-me preso, sinto-me pesado... São 23:44 da noite, e apenas sinto aço e chumbo naquele que há anos passaram a designar como meu corpo. Um corpo que está sentado num lençol branco, um corpo imundo, farto de tudo e de todos, e em todos quer dizer momentos, um simples pano branco que nem sempre chega para limpar lágrimas de lembranças. Elas não me deixam viver, comem, consomem e me descarnam. A carne dos músculos por vezes prende-se de tanta incapacidade de movimentação, a carne por vezes enrijece os meus braços, endurece-os, deixando-os estendidos como pedra, absorvidos pela terra, ironicamente tudo é como era...
Escrito por: Ricardo Jorge santos Lourenço
Lisboa, 14 de Junho de 2009
Fernando Pessoa